Meditação

Meditação é o treino regular da mente que visa desenvolver uma capacidade de atenção calma, clara e contínua, como forma de melhorar a qualidade de vida, em termos psicossomáticos, com profundos benefícios no plano da saúde e dos cuidados paliativos, da educação e do desenvolvimento sócio-profissional, bem como enquanto modo de desenvolver as potencialidades cognitivo-afectivas da consciência.


Num dos mais sistemáticos tratados tradicionais, os Estágios da Meditação, de Kamalashila, expõe-se que o treino da mente ou meditação se baseia numa ética pura  - em que o praticante se abstém de prejudicar e procura beneficiar a si e a todos os seres mediante todos os actos possíveis, mentais, verbais e físicos – e assume dois aspectos: 1) começando pelo cultivo da calma, serenidade ou paz mental (śamatha), mediante uma atenção plena concentrada de modo estável, claro e sem tensões num determinado suporte (um objecto material, um objecto mental visualizado, os sete pontos da postura do corpo, as sensações físicas externas e internas, a respiração, os pensamentos/emoções, a própria consciência, etc.), passa-se progressivamente para 2) a visão penetrante (vipaśyāna) da natureza última desse objecto e da própria realidade, do tal qual de todos os fenómenos e da mente que os percepciona  . Na tradição budista esta natureza última é designada como “vacuidade” (śunyātā), que indica a não existência intrínseca ou inerente, em si e por si, de nenhuma entidade, ou seja, a interdependência de todos os fenómenos/percepções, numa visão equidistante do essencialismo ou eternalismo e do niilismo, posições filosóficas que respectivamente sustentam a existência de entidades substanciais e a não-existência absoluta. A visão penetrante (vipaśyāna), que usa como instrumento a concentração meditativa inerente a śamatha, tem por sua vez duas instâncias: uma em que a mente analisa o modo de ser dos fenómenos e outra em que essa análise dá lugar a uma compreensão directa ou intuitiva, não conceptual, da verdadeira natureza dos mesmos. Mantendo a disciplina ética, a absorção meditativa converte-se em sabedoria. Esta complementaridade de śamatha e vipaśyāna remonta ao registo das palavras do Buda nos primeiros sutras.

(retirado de "A meditação entre Oriente e Ocidente ou a actual e urgente redescoberta de um antigo paradigma", Paulo Borges)